"É confusa a minha fórmula. Verifiquei que na minha arte poucas regras se cumprem. Desconfia de mim, não cozinhes as minhas poções se te assaltar a sombra de uma dúvida. Mas lê essa tentativa falaz de feitiçaria: o esconjuro, se servir, é apenas o seu som – o que cura é o ar que as palavras exalam.” (Héctor Faciolince)
(gravura da folha de rosto da edição de 1854 de Thoreau, Henry David. Walden; or, Life in the Maine Woods.
Boston: Ticknor & Fields)
“I went to the woods because I wanted to live deliberately, I wanted to live deep and suck out all the marrow of life. To put to rout all that was not life and not when I had come to die Discover that I had not lived.”* (Henry David Thoreau)
Tenho aparecido pouco porque, vocês sabem, na floresta não tem internet.
*"Eu fui para a floresta porque queria viver deliberadamente, queria viver profundamente e sugar toda a essência da vida, aniquilar tudo o que não fosse vida para que quando minha morte chegasse, não descobrisse que não vivi.”
Quando acordou e viu o dia lindo do lado de fora da janela e o bolo de chocolate em cima da mesa, não pode deixar de pensar que a vida é mesmo um clichê. Passou café, arrumou a mesa. Seu coração estava aquecido e o silêncio da casa já não lhe assutava. Ninguém sabia disso, só ela.
Her Morning Elegance (Oren Lavie)
Sun been down for days A pretty flower in a vase A slipper by the fireplace A cello lying in its case
Soon she's down the stairs Her morning elegance she wears The sound of water makes her dream Awoken by a cloud of steam She pours a daydream in a cup A spoon of sugar sweetens up
And she fights for her life as she puts on her coat And she fights for her life on the train She looks at the rain as it pours And she fights for her life as she goes in a store with a thought she has caught by a thread she pays for the bread and she goes… Nobody knows
Sun been down for days A winter melody she plays The thunder makes her contemplate She hears a noise behind the gate Perhaps a letter with a dove Perhaps a stranger she could love
p.s.: o Oren Lavie é um músico e escritor e diretor de teatro isralense que mora em Berlin (procura aí no google que eu não sei colocar link aqui). A letra eu peguei no Terra e o clipe tá lá no youtube. Oren tem sido minha trilha sonora essas últimas semanas.
_ ana, eu tenho um vício _ que bom... é mto bom ter vícios! _ eu não tô gostando, porque é um vício chato _ o que é? é um vício caro? _ jogar paciência no computador _ eu tb tenho esse! _ eu me sinto uma idiota _ mas, olha, o chico buarque tb joga _ todo dia eu tenho que jogar _ jogar paciência faz parte do processo criativo, porque limpa a mente pras idéias poderem vir _ é verdade! _ eu me sinto mto respaldada depois que eu soube que o chico tb joga! _ isso me aliviou, confesso _ pois é... _ égua ana, tu não sabes como eu estou feliz em ter um vício em comum com o chico!!!
"O tempo de Chico Buarque é diferente, diz ele. O trabalho e a criação ocpuam sempre a sua cabeça. Quando caminha pela praia, quando vê um filme. Às vezes comete silêncios desconcertantes porque no meio de uma conversa se detém para pensar. Na hora de escrever, muitas vezes senta-se à frente do computador e fica horas jogando paciência. Até ter uma idéia. Então passa para o texto, escreve cinco minutos e volta para a paciência. Com o andar das coisas, isso vai mudando e ele fica menos tempo na paciência e mais no texto. (...)" (Chico Buarque do Brasil, ed. Garamond, p. 109)
...e agora?? o problema de não saber de onde viemos e para onde vamos é esse!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Se ela fumasse, ia acender um cigarro e abrir uma cerveja. Como não fuma e não tem cerveja em casa, fez um chá. Chá não tem nada de baudelairiano!
Abriu a cortina. Noite longa e escura. Lembrou do poema do Robert Frost que leu esses dias...
The darkest evening of the year (…) The woods are lovely, dark and deep. But I have promises to keep, And miles to go before I sleep, And miles to go before I sleep.
Só o desejo inquieto, que não passa, Faz o encanto da coisa desejada... E terminamos desdenhando a caça Pela doida aventura da caçada. [Mario Quintana; Espelho Mágico, 1945]
Quando ele a tirou pra dançar, sabia que corria perigo. Mas o alento do perigo lhe era irresistível...
Era um caminho que de tão velho, minha filha, já nem mais sabia aonde ia... Era um caminho velhinho, perdido... Não havia traços de passos no dia em que por acaso o descobri: pedras e urzes iam cobrindo tudo. O caminho agonizava, morria sozinho... Eu vi... Porque são os passos que fazem os caminhos!
Pois é! São os passos que fazem os caminhos... Só que às vezes, acontece da gente se acostumar a pegar sempre o mesmo caminho. Por toda a vida, não importando para onde se queira ir, vai-se sempre pelo mesmo lugar, faz-se sempre aquele caminho, conhecido e viciado. Mas um dia, simplesmente, a gente olha ao redor e vê a presença doce de um caminho velhinho, esquecido. Foi assim que um dia desses descobri, maravilhada, que podia caminhar por outras partes...
Desde ontem não sinto fome. Satisfeita, sem me sentir empanturrada, me peguei pensando sobre os mandamentos cristãos. É, eu sei, parece estranho que eu pense a respeito, mas eu penso bastante até. Quando Jesus foi questionado sobre os mandamentos de Móises, ele simplificou a vida dos cristãos, sintetizando os dez em dois mandamentos: amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Amar a deus sobre todas as coisas já é bastante difícil, porque Deus, o Transcendente, fica lá no céu, e aqui na terra, a gente acaba amando muitas outras coisas. Mas amar ao próximo como a si mesmo... aff, é muito mais! Porque, diferente de Deus, o Transcendente, o Próximo tem pele, cheiro, voz, tato. E ele ri e põe a mão na nuca, e faz cara de mau. O Próximo é um corpo biológico, sexuado, animado, com humores e temperamentos, que causam no Si Mesmo, que também é um corpo biológico, sexuado, animado, com humores e temperamentos, uma série de reações adversas e caóticas. E às vezes o sujeito ama a Deus, o Transcendente, com todo o coração, e com toda a vontade e o entendimento, e se lança, inocente, a amar o Próximo como a si mesmo. Mas alguma coisa acontece, e o que era pra ser expressão de amor, magoa, porque afinal, o Si Mesmo se exprime através de um corpo biológico, sexuado, animado, com humores e temperamentos. E eu acrescentaria, ainda, com memória. E o Próximo, então, a quem o sujeito ama tanto, se vai triste e sem olhar pra trás...
Que esta minha paz e este meu amado silêncio Não iludam a ninguém Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios Acho-me relativamente feliz Porque nada de exterior me acontece... Mas, em mim, na minha alma, Pressinto que vou ter um terremoto! (Mário Quintana)
Ultimamente minhas palavras andam mudas. Sentada diante da encruzilhada há meses, começo a irritar-me. Tenho ânsia de salto, mas não ouso... acho que essa frase não é minha. Meus sismógrafos começam a registrar as primeiras ondas. Com o coração alerta, espero.
“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: 'Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência."
(...)
Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: 'Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!' Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa:
‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”
(Nietzsche. A gaia ciência)
Ela estava lá, diluindo-se em comiseração.
Pensava em todo o trabalho que tinha pela frente. Pensava no hábito, que sintetiza o tempo. Pensava. Pensava na reminiscência erótica da Idéia platônica. E na repetição, que de tanto repetir, cria a diferença. E quem suporta a repetição? Ela suporta. Quadros de Francis Bacon lhe vinham à mente. Desejou ter consigo seu cd de Tristão e Isolda. Desejou ser mais sabida. Desejou ler Sartre. E Camus, e outros franceses. Desejou entender muitas coisas. Desejou. Olhou pela janela, repetindo o hábito. Pensou de novo na reminiscência erótica. Desejou mais um pouquinho.
Pensou em Jó; o da paciência!
Ela desejava tudo aquilo que ela desejava com toda a intensidade com que desejava cada coisa. Pensou na solidez de seu desejo. Desejo maciço. Alguém estava bêbado na rua, e fazia muito barulho e vomitava. Pensou na fragilidade do limite de cada coisa. E no limite das coisas sem limites. Imaginou a infinitude e a inquietude absoluta do puro mover-se-a-si-mesma. Eternamente. Desligou o abajur.
O problema do inevitável é que é da natureza dele acontecer.Pode-se até adiar por alguns dias, por anos até, mas chega uma certa hora que pumba, ele inevitavelmente acontece. A dor, por exemplo, é inevitável, eu sei, mas algumas, por deus!!, são dispensáveis. Há dores que até fazem sentido, fazem amadurecer, compreender melhor a vida... ou sei lá o que, mas outras são absolutamente sem propósito, no entanto, doem latejado e profundo do mesmo jeito. São umas dores que até poderiam ser evitadas, contudo não se consegue. Talvez seja uma espécie de escolha, já que a dor é inevitável, melhor sofrer com uma que já se sabe como vai doer, já se tem até a manha pra agüentar. Sim, porque raramente se morre disso. E o mais irônico é que aquilo que por definição é inevitável na vida é a morte... (suspiro profundo)...
Eu sei que se arrependimento matasse, eu tinha acordado mortinha da silva! Menos mal que não mata.
Pra isso não tem receita que dê jeito, já experimentei várias coisas. Em todo caso, faça refeições leves e tome bastante água.
“De todas as maneiras que há de amar, já nos machucamos. Com todas as palavras feitas pra humilhar, nos afagamos. Agora, já passa da hora. Tá lindo lá fora. Larga minha mão. Solta as unhas do meu coração Que ele está apressado” (chico buarque)
Abri a porta. Não acendi a luz. Acendi o fogo sob a leiteira. O coração aflito, a cidade quieta. Um pesadelo medonho, sofisticado, vinha me perturbando o sono...
Não chegava a ser um amor. Todavia, não consumado. Um acidente. Um desconsolo incompreensível. Um chuveiro no lado de fora numa casa de campo, o chão de madeira, a noite escura. Enquanto a água caía, o homem amado, morto e sujo de lama, vinha em minha direção. E no peito costurado e inerte pude deitar a cabeça.
Acordei chorando. Era um prenúncio, agora eu sabia.
E o cheiro de queimado me fazia lembrar o conselho: uma mulher aflita deve manter-se longe da cozinha.
“Aprendi a dizer, a curvar-me aos meus próprios desejos, a tirar com as mãos as ervas daninhas e pragas em volta da horta. Moldada no fogo do fogão a lenha, sou forte, caibo com conforto dentro da pele, digo com candura ou com espada o que penso.” (papel manteiga para embrulhar segredos)
E conversei sem nenhuma outra intenção. Comedida mesmo, sem fazer charme. Mas chegou a hora em que os assuntos começaram a escassear. Mudou a atmosfera, mudou o humor. Estava decidida a não ficar com ele. Daí silêncio. Daí olhos nos olhos. Ele perguntou o que eu estava pensando... _ prefiro não dizer... _ não quer materializar?... _ eu quero!... mas também gosto do silêncio... Daí calor... e beijo de esquimó. E nariz. E nariz. E beijo no rosto, e cheiro. E barba. Pouca barba. Ele segurou minha mão no peito dele. E carinho dele em mim. E respiração e coração batendo. Não me mexi pra ir lá beija-lo. E nem ele veio. A gente ficou assim, nesse namoro Eça de Queiroz. A gente desejava, mas num ia fazer. E nada precisava ser dito. Então, alguém acendeu uma luz. Estava frio. Ele segurou minha mão em baixo do cobertor. E sono.
De novo, possibilidades. Fiz como era certo, não porque era certo, mas porque era o que eu queria. Nem fugi, nem me atirei desvairada. E me senti confortável dentro de mim. Eu fui eu mesma.
_tu achas que eu sou demais? _demais fresca? _é _não... _só porque gosto de geléia de pimenta? _de comidas que ninguém sabe o nome... _mas é que eu sou sofisticada, poxa. _é _não tenho culpa se eu sou chique. _Tiraste o embrulho? _que embrulho? _o daí de dentro, de novo... _não, eu só coloquei o papelão... eu sou além de sofisticada, muito inteligente! _ah, tá! e modesta. _pois é, né? _nem tanto... _eu tenho muitas qualidades...